Sobre o CEPPS
Cursos
Artigos
O que oferecemos
Contato

A Síndrome de Burnout - Parte III

O termo Burnout é uma composição de burn=queima e out=exterior, sugerindo assim que a pessoa com esse tipo de estresse, consome-se física e emocionalmente, passando a apresentar um comportamento agressivo e irritadiço.

Tal síndrome se refere a um tipo de estresse ocupacional e institucional com predileção para profissionais que mantêm uma relação constante e direta com outras pessoas, principalmente quando esta atividade é considerada de ajuda (médicos, enfermeiros, professores).

A Síndrome de Burnout é definida como uma reação à tensão emocional crônica gerada a partir do contato direto, excessivo e estressante com o trabalho. É caracterizada pela ausência de motivação ou desinteresse; mal estar interno ou insatisfação ocupacional que parece prejudicar, em maior ou menor grau, a atuação profissional de alguma categoria ou grupo profissional.

É apresentada como formas de condutas negativas, como por exemplo, a deterioração do rendimento, a perda de responsabilidade, atitudes passivo-agressivas com os outros e perda da motivação, onde se relacionariam tanto fatores internos, na forma de valores individuais e traços de personalidade, como fatores externos, na forma das estruturas organizacionais, ocupacionais e grupais. Podemos dizer que é uma resposta ao estresse ocupacional crônico.

A Síndrome de Burnout pode trazer sérias conseqüências não só do ponto de vista pessoal bem como institucional; é o caso do absenteísmo, da diminuição do nível de satisfação profissional, aumento das condutas de risco, inconstância de empregos e repercussões na esfera familiar.

Alguns autores a define como uma das conseqüências mais marcantes do estresse profissional, onde se destacam a exaustão emocional, avaliação negativa de si mesmo, depressão e insensibilidade com relação a quase tudo e todos (até como defesa emocional).

Inicialmente, a síndrome foi observada em profissionais que estavam predominantemente em contacto interpessoal mais exigente, tais como, médicos, psicanalistas, carcereiros, assistentes sociais, comerciários, professores, atendentes públicos, enfermeiros, funcionários de departamento pessoal, telemarketing e bombeiros. Atualmente as observações já se estendem a todos profissionais que interagem de forma ativa com pessoas, que cuidam e/ou solucionam problemas de outras pessoas, que obedecem técnicas e métodos mais exigentes, fazendo parte de organizações de trabalho submetidas a avaliações.

Entre os fatores aparentemente associados ao desenvolvimento da Síndrome de Burnout está a pouca autonomia no desempenho profissional, problemas de relacionamento com as chefias, problemas de relacionamento com colegas ou clientes, conflito entre trabalho e família, sentimento de desqualificação e falta de cooperação da equipe.

A Síndrome de Burnout se difere do estresse; envolve atitudes e condutas negativas com relação aos usuários, clientes, organização e trabalho, enquanto o estresse apareceria mais como um esgotamento pessoal com interferência na vida do sujeito e não necessariamente na sua relação com o trabalho.

Procurando traçar uma trajetória do caminho da saúde para o adoecimento, podemos dizer que a doença não é algo que vem de fora e se superpõe ao homem, e sim um modo peculiar da pessoa se expressar em circunstâncias adversas, tal qual afirma Perestrello, em 1989. É, pois, como suas outras manifestações, um modo de existir, ou de coexistir, já que o homem não existe, coexiste.

O ser humano é um sistema aberto, em constante interação com o seu meio. Dessa forma, o adoecer é uma das manifestações do homem com seu ambiente e, como o ser humano não é um sistema fechado, todo o seu ser se comunica com o ambiente, com o mundo. Mesmo quando aparentemente não existe comunicação, isto já é uma forma de comunicação, como o silêncio, às vezes, é mais eloqüente do que a palavra.

Atualmente o viver está permeado de situações bastante estressantes: a violência urbana, o desemprego, a precariedade dos atendimentos na área da saúde, dentre tantos outros fatores que afetam direta e indiretamente o ser humano. Diante desta realidade nos perguntamos: Por que um conflito, uma dificuldade, em indivíduos diferentes ou no mesmo indivíduo, em momentos diversos de sua história, pode gerar tanto uma determinada modificação comportamental como um sofrimento puramente psíquico ou, enfim, a uma desorganização somática?

Há autores que definem a era moderna como a Idade da Ansiedade, associando a este acontecimento psíquico a agitada dinâmica existencial da modernidade; sociedade industrial, competitividade, consumismo desenfreado e assim por diante.

Diz-se que a simples participação do indivíduo na sociedade contemporânea já preenche, por si só, um requisito suficiente para o surgimento da Ansiedade. Portanto, viver ansiosamente passou a ser considerado uma condição do homem moderno ou um destino comum ao qual todos nós estamos, de alguma forma, atrelados.

Com certeza, até por uma questão biológica, podemos dizer que a Ansiedade sempre esteve presente na jornada humana desde a caverna até a nave espacial. A novidade é que só agora estamos dando atenção à quantidade, tipos e efeitos dessa Ansiedade sobre o organismo e sobre o psiquismo humanos, de acordo com as concepções da prática clínica, da medicina psicossomática e da psiquiatria.

O fato é que, um corpo, sadio ou doente, é sempre um corpo em relação com o meio, envolvido por emoções, animado por movimentos afetivos, e que os psiquiatras, psicólogos ou psicanalistas, tendem a ver, no seu funcionamento somático e nos seus desequilíbrios, um dado constantemente intrincado com a vida psíquica e indissociável da noção de equilíbrio psíquico do indivíduo.

A Ansiedade passou a ser objeto de distúrbios quando o ser humano colocou-a não a serviço de sua sobrevivência, como fazia antes, mas a serviço de sua existência, com o amplo leque de circunstâncias quantitativas e qualitativas desta existência. Assim, o estresse passou a ser o representante emocional da Ansiedade, sua correspondência psíquica e egoicamente determinada. O fato de um evento ser percebido como estressante não depende apenas da natureza do mesmo, como acontece no mundo animal, mas do significado atribuído à este evento pela pessoa, de seus recursos, de suas defesas e de seus mecanismos de enfrentamento. Isso tudo diz respeito mais à personalidade que aos eventos do destino em si.

Angústia ou ansiedade designam um sentimento penoso de espera ou um medo sem objeto; constituem um estado afetivo doloroso, desencadeado por um perigo imaginário, ou sinalizando-o, em geral inconsciente, o que distingue do medo, estado afetivo, diretamente ligado à ameaça representada por um objeto ou situação definidos. Se bem que os termos sejam comumente utilizados um pelo outro, pode-se definir angústia como a vivência corporal da ansiedade.

A angústia comporta uma modificação de uma ou várias funções vegetativas, segundo a predominância da excitação do sistema nervoso simpático ou do parassimpático. Dependendo dos casos, pode desencadear uma aceleração cardíaca, uma dispnéia, uma perturbação do trânsito intestinal, uma variação das secreções sudoríparas, salivares ou gástricas, do surgimento de espasmos musculares, etc. Mesmo quando a angústia é uma expressão essencialmente somática, ela permanece um fenômeno de característica acima de tudo afetiva.

A ansiedade se exprime a nível mental, somático ou misto. Os concomitantes físicos são mais ou menos ricos ou expressivos, dependendo de uma pré-disposição genética e de reações reflexas influenciadas pelo condicionamento, assim como de influências de elementos de natureza cultural e social.

A autorização de sentir e exprimir emoções pelo corpo é um dado intimamente ligado a modelos educativos e às condições de aprendizagem própria de cada cultura. A capacidade de elaborar mentalmente um certo grau de angústia e de suportar a insegurança imposta por um sentimento de ameaça indefinível depende igualmente do modo de organização psíquica de cada indivíduo.

Toda pessoa tem um limiar de tolerância para o desconhecido e para o sentimento de falta, correlativos da angústia, além do qual seus referenciais identificadores são abalados, podendo, assim, repercutir sobre o seu sentimento de integridade e coerência.

No ser humano o conflito parece ser essencial ao desenvolvimento da Ansiedade. Em nosso cotidiano, sem termos plena consciência, experimentamos um sem-número de pequenos conflitos, interpessoais ou intrapsíquicos; as tensões entre ir e não ir, fazer e não fazer, querer e não poder, dever e não querer, poder e não dever, a assim por diante.

A incerteza, a falta de controle e incapacidade de administrar o tempo foram apontados pelos colaboradores brasileiros como os principais fatores estressantes no estudo da ISMA-BR (International Stress Management Association no Brasil), associação que estuda o stress e suas formas de prevenção. A pesquisa, feita com 586 homens e mulheres de quatro empresas de abrangência nacional, em três cidades brasileiras, mostra o desafio que os profissionais enfrentam para lidar com o excesso de tarefas e de demandas no dia-a-dia corporativo. E isso que tem gerado altos níveis de stress, desencadeando distúrbios funcionais, problemas psicossomáticos e doenças degenerativas.

Um dos principais problemas apontados recentemente por especialistas na Síndrome de Burnout, é que, diante de um nível de stress altíssimo, que pode levar a problemas cardiovasculares, gastrointestinais e depressão, o portador pode chegar, inclusive, ao suicídio.

Christina Maslach, Ph.D. (EUA) - pioneira nas pesquisas sobre burnout no trabalho e autora do Maslach Burnout Inventory (MBI), é a maior autoridade mundial no tema burnout, o mais alto nível de stress, e, em entrevista concedida à revista Veja (05/06/2006), esclarece algumas importantes questões:

COMO IDENTIFICAR A SÍNDROME DE BURNOUT?
Ao contrário do stress agudo, que ocorre em momentos específicos, com picos de altos e baixos, o burnout leva a uma exaustão constante e intensa. Quem sofre do problema começa a se sentir cada vez mais inútil na atividade que exerce.

QUAIS SÃO AS CAUSAS?
O pior é exercer atividade que não condiz com os próprios valores, achar que o trabalho realizado não é reconhecido pela chefia e se sentir sobrecarregado com o excesso de funções.

O STRESS É MAIS SEVERO PARA QUEM FAZ HORA EXTRA E LEVA TRABALHO PARA CASA?
Não necessariamente. Trabalhar pesado nada tem a ver com o stress ou o burnout. Quem trabalha mais do que os colegas, mas gosta do que faz, sentirá menos exaustão do que uma pessoa que trabalha apenas meio período, mas se sente frustrada com a profissão escolhida.

COMO EVITAR O BURNOUT?
Uma das principais estratégias é sentir satisfação na atividade que se exerce, acreditar que a missão foi cumprida após a execução de um relatório ou de um projeto. Quem acumula fracassos é um forte candidato a ter burnout. Atividades paralelas, como praticar esportes e fazer trabalho voluntário, também ajudam.

Assim terminamos nosso tema Síndrome de Burnout:

“O ADOECER NUMA VISÃO PSICOSSOMÁTICA”
“O adoecimento do ser humano é uma das formas de expressão
quando ele se encontra no limiar do sofrimento.
Cabe ao profissional da área da Saúde, buscar compreender
essa forma de linguagem.
Foi a única maneira que o paciente encontrou para dizer
que ele não está absolutamente, conseguindo lidar,
com um certo equilíbrio,
com as situações difíceis da sua vida.
(A.D. Cantone)

Fonte de pesquisa para a elaboração deste texto:
Ballone GJ - Síndrome de Burnout - in. PsiqWeb Psiquiatria Geral,


Copyright (c) 2007 - CEPPS - Todos os direitos reservados Av. Jandira, 295 cj. 608 - Moema
São Paulo / SP - CEP 04080-001